Carreira
Pretensão salarial: como pesquisar, responder e negociar
Onde pesquisar quanto se paga para o seu cargo (Novo Caged, CBO, convenção coletiva), como montar a sua faixa, frases prontas para a entrevista e o formulário e como comparar propostas e benefícios.
Para responder bem sobre pretensão salarial, você precisa chegar com uma faixa pesquisada, e não com um número tirado do nada. Descubra quanto se paga para o seu cargo, no seu setor e na sua região, usando fontes oficiais (como o Novo Caged e a convenção coletiva da categoria), anúncios de vaga e conversas com quem é da área. Com isso, monte uma faixa com um mínimo aceitável, um valor-alvo e um teto. Na entrevista ou no formulário, informe essa faixa em salário bruto mensal, mostre que ela é negociável conforme o pacote de benefícios e, sempre que puder, pergunte qual é a faixa prevista para a vaga.
Este guia mostra onde pesquisar, como montar a sua faixa, o que dizer em cada situação, como comparar propostas e quais benefícios vale negociar. Ele não traz tabela de salários por cargo, de propósito: os valores mudam com região, setor, porte da empresa e convenção coletiva, e um número genérico mais atrapalha do que ajuda.
O que é pretensão salarial (e o que ela não é)
Pretensão salarial é o valor que você espera receber para ocupar a vaga. Em contratações com carteira assinada, ela é informada quase sempre como salário bruto mensal, isto é, antes dos descontos de INSS, imposto de renda e da sua parte em benefícios como vale-transporte e plano de saúde.
Ela não é:
- O salário líquido que cai na conta. Se você calcular a pretensão pelo líquido e informar como se fosse bruto, vai receber menos do que planejou.
- O valor de uma proposta PJ. Como prestador de serviço, você paga impostos e não tem 13º, férias remuneradas nem FGTS, então o número precisa ser bem diferente. O guia CLT ou PJ mostra como comparar.
- Um compromisso fechado. É uma referência para a negociação, que pode mudar com o que você descobrir sobre a vaga.
Passo 1: confirme qual é o seu cargo de verdade
Antes de pesquisar salário, saiba exatamente qual cargo você está buscando. "Auxiliar administrativo" e "assistente administrativo" podem ter atividades e salários diferentes, e o mesmo trabalho às vezes recebe nomes distintos em cada empresa.
A Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), mantida pelo Ministério do Trabalho e Emprego, ajuda nisso. No site, você pesquisa por palavra-chave e encontra o nome oficial da ocupação, o código, os nomes alternativos (sinônimos) e a descrição das atividades. Três usos práticos:
- Conferir se as atividades da vaga combinam com o cargo anunciado.
- Descobrir outros nomes da mesma ocupação, para buscar mais vagas e mais referências de salário.
- Obter o código da ocupação, que é o que se usa para filtrar estatísticas oficiais, como as do Novo Caged.
A CBO não informa salário. Ela serve para classificar ocupações, e é o código da sua ocupação que o empregador anota no seu contrato de trabalho.
Passo 2: pesquise a faixa em várias fontes
Nenhuma fonte, sozinha, dá o número certo. A ideia é cruzar três ou quatro e enxergar um intervalo.
Novo Caged (Ministério do Trabalho e Emprego)
O Novo Caged é a estatística oficial de admissões e desligamentos de empregados com carteira assinada, divulgada mês a mês pelo Ministério do Trabalho e Emprego. Três materiais são úteis para quem pesquisa salário:
- Sumário executivo do mês: traz o salário médio de admissão do país, por setor de atividade e por estado. Serve como referência geral, mas é uma média de todas as contratações, não do seu cargo.
- Painel de informações do Novo Caged: uma ferramenta interativa para explorar os números, com link na mesma página.
- Microdados: arquivos divulgados pelo ministério, no Programa de Disseminação das Estatísticas do Trabalho, com cada movimentação registrada (admissões e desligamentos), incluindo o código CBO da ocupação, o estado, o município e o salário informado. É a fonte mais detalhada, mas exige saber trabalhar com planilhas grandes.
Se você tem familiaridade com planilhas, filtrar os microdados pelo código CBO da sua ocupação e pelo seu estado dá uma ideia bem concreta de quanto as empresas estão pagando para quem entra. Se não tem, o sumário já ajuda a perceber se o seu setor e o seu estado pagam acima ou abaixo da média nacional.
Convenção coletiva da sua categoria
Muitas categorias têm piso salarial definido em convenção ou acordo coletivo, negociado entre sindicatos de trabalhadores e de empresas. A convenção também costuma trazer o percentual de reajuste anual e, às vezes, benefícios obrigatórios, como vale-alimentação. Nenhuma proposta pode ficar abaixo desse piso.
Para encontrar, pergunte ao sindicato da sua categoria ou use o serviço Consultar Instrumento Coletivo de Trabalho, no gov.br, que dá acesso às convenções e acordos registrados no Sistema Mediador do Ministério do Trabalho. Confira a vigência: cada instrumento vale por, no máximo, dois anos.
Lembre também do limite mínimo geral: nenhum salário de jornada integral pode ser inferior ao salário mínimo nacional (na jornada parcial, o valor é proporcional), e alguns estados têm piso regional próprio, maior que o mínimo.
Anúncios de vagas
Muitas vagas trazem o salário ou a faixa no anúncio. Junte de cinco a dez anúncios do mesmo cargo, na sua região, e anote o valor, o porte da empresa e os benefícios. Repare nos requisitos: vagas que pedem mais experiência, inglês ou um sistema específico costumam pagar mais. As vagas abertas da ConectaRH também servem de referência quando trazem a remuneração.
Pessoas da área
Colegas de curso, ex-colegas de trabalho, professores e o próprio sindicato sabem quanto se paga na prática. Em vez de perguntar "quanto você ganha?", pergunte "qual é a faixa que se paga para esse cargo por aqui?". É mais fácil de responder e não deixa ninguém constrangido.
Passo 3: monte a sua faixa
Com as referências em mãos, defina três números:
| Número | O que é | Como definir |
|---|---|---|
| Mínimo aceitável | Abaixo dele, você não aceita | Some seus custos fixos do mês e o custo de trabalhar (transporte, alimentação fora de casa, cuidado com filhos) e compare com o salário líquido estimado |
| Alvo | O valor que você considera justo | A faixa do mercado para o seu nível de experiência, ajustada pela região e pelo porte da empresa |
| Teto | O topo realista da negociação | O que as vagas mais exigentes do mesmo cargo pagam, se você atende aos requisitos delas |
A faixa que você vai informar fica entre o alvo e o teto, porque a negociação tende a puxar para baixo. Mantenha-a estreita: uma faixa muito larga ("entre o salário mínimo e o dobro dele") passa a impressão de que você não pesquisou.
Para estimar o líquido a partir do bruto, use as tabelas oficiais atualizadas de contribuição ao INSS e do Imposto de Renda. As alíquotas do INSS são progressivas, por faixa de salário, e o imposto de renda segue a tabela mensal da Receita Federal. Desconte também a sua parte do vale-transporte e de outros benefícios, se houver.
Ajustes que mudam a sua faixa
- Experiência: quem está começando fica mais perto do piso; quem já domina a função pode mirar no alto da faixa.
- Região: capitais e regiões metropolitanas costumam ter custo de vida e salários diferentes do interior.
- Porte e setor: uma indústria grande e um pequeno comércio raramente pagam igual para o mesmo cargo.
- Modalidade e horário: trabalho noturno, em escala ou com deslocamento longo pesa na conta.
- Benefícios: um plano de saúde para a família pode valer mais que uma diferença pequena no salário.
Como responder no formulário de inscrição
Muitos formulários têm um campo de pretensão salarial. Algumas situações:
- Campo de texto livre: escreva a faixa e o regime. Exemplo de formato: "Entre [valor A] e [valor B], bruto mensal, CLT. Negociável conforme benefícios."
- Campo só de número: coloque o seu valor-alvo. Evite truques como "0" ou "1": alguns sistemas filtram por esse campo, e o recrutador que lê um zero não sabe o que você quer.
- A vaga já informa o salário: se o valor anunciado atende você, informe um número compatível com ele. Se não atende, pense se vale se candidatar; pedir muito acima do anunciado costuma tirar você do processo.
- Opção "a combinar": é aceitável quando o formulário oferece, mas, se o campo permite um valor, uma faixa pesquisada mostra mais preparo.
Use a mesma faixa em todos os formulários da mesma empresa e na entrevista. Informação diferente em cada lugar gera desconfiança.
Como responder na entrevista
A pergunta pode aparecer logo na primeira conversa com o recrutador ou só no final do processo. Tenha uma resposta pronta para cada caso. Essas frases são modelos; adapte ao seu jeito de falar.
Quando perguntam cedo, antes de você conhecer bem a vaga
"Gostaria de entender melhor as atividades e os benefícios para dar um número mais preciso. Mas, para você ter uma referência, pelo que pesquisei para esse cargo aqui na região, minha expectativa fica entre [A] e [B], bruto mensal. Qual é a faixa prevista para a vaga?"
Você dá uma referência, mostra que pesquisou e devolve a pergunta de forma educada.
Quando o recrutador pede um número exato
"Considerando o que conversamos, meu valor é [alvo], bruto mensal, contando com os benefícios que você comentou."
Diga o número com tranquilidade e pare de falar. Justificar demais passa insegurança.
Quando perguntam quanto você ganha hoje (ou ganhava)
"Hoje recebo [valor] de salário fixo, mais vale-refeição e plano de saúde. Para essa mudança, considerando a responsabilidade a mais, busco algo entre [A] e [B]."
Responda com a verdade. Inflar o salário atual pode ser descoberto e acaba com a confiança. Se o seu salário atual está abaixo do mercado, explique que a sua pesquisa indica outra faixa para o novo cargo.
Quando a proposta vem abaixo do esperado
- Agradeça e peça um tempo, se precisar: "Obrigado pela proposta. Posso dar um retorno até amanhã?"
- Apresente a contraproposta com motivo: "Pela minha experiência com [atividade] e pelo que vi para cargos parecidos, eu esperava algo perto de [valor]. Existe flexibilidade?"
- Se o salário não muda, negocie o resto: benefícios, data de revisão salarial, modalidade de trabalho.
- Decida com base no seu mínimo aceitável, e não no medo de perder a vaga.
Quando a proposta é boa
Aceite com clareza e peça a confirmação por escrito: salário, benefícios, jornada, local, data de início e tipo de contrato. Depois da admissão, confira se o salário registrado no contrato bate com o combinado; o guia da Carteira de Trabalho Digital mostra onde ver.
Primeiro emprego, estágio e aprendizagem
Nessas vagas, o valor costuma ser fixo e a margem de negociação é pequena. Para o aprendiz, a CLT garante pelo menos o salário mínimo hora, salvo condição mais favorável. Pergunte sobre benefícios, horário e aprendizado, e veja os detalhes nos guias de Jovem Aprendiz e de estágio.
Benefícios: o que perguntar e negociar
O salário é só uma parte. Na hora de avaliar e negociar, pergunte sobre cada item:
| Benefício | O que perguntar |
|---|---|
| Vale-transporte | Cobre todo o trajeto? A Lei nº 7.418/1985 permite descontar do empregado até 6% do salário básico; o que passar disso é pago pela empresa |
| Vale-refeição ou alimentação | Qual o valor por dia, há desconto em folha e se é pago também nas férias. A lei não obriga, mas a convenção coletiva pode obrigar |
| Plano de saúde | Quem paga, se tem coparticipação, se cobre dependentes e a partir de quando vale |
| Plano odontológico | Se é oferecido e quanto custa para dependentes |
| Participação nos lucros (PLR) ou bônus | Quais são as metas e como foi pago nos últimos anos. A PLR segue a Lei nº 10.101/2000 e depende de regras negociadas com os empregados |
| Modalidade de trabalho | Presencial, híbrido ou remoto; se há ajuda de custo para internet e energia no remoto |
| Jornada e escala | Horário, folgas, trabalho aos fins de semana, banco de horas |
| Desenvolvimento | Auxílio para cursos ou faculdade, treinamentos |
| Revisão salarial | Quando acontece, por qual critério, se há plano de cargos |
Uma estratégia que costuma funcionar quando a empresa não pode mexer no salário: pedir uma revisão após o período de experiência, com critérios combinados. "Topo começar nesse valor se pudermos rever em seis meses, com base nas metas da função." Peça que isso conste por escrito.
Como comparar duas propostas
Para comparar propostas CLT, olhe o ano inteiro, não só o mês. Além dos 12 salários, você recebe o 13º salário e, nas férias, um adicional de um terço. Uma conta rápida: multiplique o salário mensal bruto por 13,33 (12 meses, mais o 13º, mais o terço de férias). O FGTS, de 8% sobre a remuneração, é depositado à parte numa conta em seu nome. Depois, some o valor dos benefícios e subtraia o que for descontado de você.
Exemplo qualitativo:
| Ponto | Proposta A | Proposta B |
|---|---|---|
| Salário bruto | 10% maior que o da B | Referência |
| Plano de saúde | Não tem | Tem, com dependentes |
| Trabalho | Presencial, a 1h30 de casa | Híbrido, 3 dias no escritório |
| Revisão salarial | Sem previsão | Após a experiência, por metas |
Pelo salário, a A ganha. Mas, se você precisaria pagar plano de saúde por conta própria e gastaria três horas por dia no transporte, a B pode sair melhor no fim do mês e na qualidade de vida.
Igualdade salarial
A Lei nº 14.611/2023 tornou obrigatória a igualdade salarial e de critérios de remuneração entre mulheres e homens que fazem trabalho de igual valor ou exercem a mesma função. Empresas com 100 ou mais empregados devem publicar relatórios semestrais de transparência salarial. Se você for contratada e descobrir que recebe menos que colegas homens na mesma função, procure o RH, o sindicato ou os canais do Ministério do Trabalho.
Erros comuns
- Chutar um número sem pesquisa, alto ou baixo demais.
- Confundir bruto e líquido.
- Pedir muito abaixo do mercado por medo. Isso pode passar a impressão de pouca experiência e prender você num salário baixo por anos.
- Informar valores diferentes no formulário e na entrevista.
- Mentir sobre o salário atual.
- Olhar só o salário e esquecer benefícios, deslocamento e jornada.
- Aceitar promessas verbais de aumento sem nada por escrito.
- Negociar com ultimato ("ou paga isso ou não vou"), a não ser que você esteja mesmo disposto a recusar.
- Esquecer o piso da convenção coletiva, que pode ser maior do que a proposta.
Checklist antes de falar de salário
- Cargo confirmado na CBO, com os nomes alternativos.
- Referências levantadas: Novo Caged, convenção coletiva, anúncios e pessoas da área.
- Mínimo aceitável calculado com base no líquido e nos seus custos.
- Faixa definida, entre o alvo e o teto, em salário bruto mensal.
- Frases prontas para: pergunta cedo, pedido de número exato, salário atual e contraproposta.
- Lista de benefícios para perguntar.
- Comparação anual feita, se houver mais de uma proposta.
- Proposta final confirmada por escrito.
Pretensão salarial costuma aparecer no meio de outras perguntas da entrevista. Para se preparar para todas, veja o guia das perguntas mais comuns na entrevista de emprego.
Leia também: CLT ou PJ: como comparar propostas, direitos de quem tem carteira assinada e perfil no LinkedIn que atrai recrutadores.
Perguntas frequentes
Pretensão salarial é o valor bruto ou líquido?
Na contratação CLT, o padrão é informar o salário bruto mensal, antes dos descontos de INSS, imposto de renda e benefícios. Se tiver dúvida sobre o que a empresa quer, pergunte ou escreva "bruto mensal" ao lado do valor.
Posso mudar minha pretensão depois de informar?
Pode, se surgir informação nova que justifique, como mais atividades do que o anúncio dizia ou ausência de um benefício que você contava ter. Explique o motivo com calma. Subir o valor sem razão no fim do processo costuma prejudicar a confiança.
É falta de educação perguntar o salário da vaga?
Não. Perguntar a faixa prevista é uma pergunta profissional, e muitos recrutadores preferem que isso fique claro cedo para não fazer ninguém perder tempo. O tom é que importa: pergunte com naturalidade, sem cobrança.
E se eu aceitar um salário menor agora, consigo aumento depois?
Depende da política da empresa e do reajuste previsto na convenção coletiva da categoria. Antes de aceitar, pergunte como e quando acontecem as revisões salariais e peça que isso fique registrado na proposta.
Fontes oficiais consultadas
- Novo Caged — Estatísticas do Trabalho, Ministério do Trabalho e Emprego
- Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) — Ministério do Trabalho e Emprego
- Consultar Instrumento Coletivo de Trabalho (Sistema Mediador) — gov.br
- Lei nº 14.611/2023 (igualdade salarial entre mulheres e homens) — Planalto
- Lei nº 7.418/1985 (vale-transporte) — Planalto
- Lei nº 10.101/2000 (participação nos lucros ou resultados) — Planalto
- Tabela de contribuição mensal — INSS
- Tabelas do Imposto de Renda — Receita Federal
Conteúdo informativo, conferido na data de publicação. Leis e valores mudam: confirme sempre na fonte oficial.